A POESIA DE RUI KNOPFLI: UMA PERSPECTIVA CALIBANESCA
Marcia Glenadel Gnanni Ernesto - UFRJ
I. Introdução
A idealização deste trabalho surge do amor ao estudo das literaturas em geral. Tal sentimento desenvolveu suas raízes quando da leitura de A Tempestade, de William Shakespeare. Embora escrita no início do século XVII, esta peça encontra-se bastante atual, trazendo até os leitores o eterno conflito conquistador (encarnado pelo personagem Próspero) e elemento autóctone (Caliban).
Ao estudar a lírica de Moçambique, procuramos nos ater a um poeta cuja temática abordasse a tensão dominador/dominado, pelo fato de tanto a África quanto o Brasil/América Latina possuírem um passado doloroso (e não menos vergonhoso) de colonização. Este tema, aliás, ainda está em voga em nossos dias: anteriormente, colonização política e pelas armas, ao longo dos tempos, a cultural, ideológica e financeira...
Como fruto histórico de seu tempo, Rui Knopfli não poderia deixar de escrever sem as marcas de todo aquele que tem sua terra invadida e espoliada; sem uma crise de identidade. Ainda mais quando se trata de um homem cosmopolita e de ascendência estrangeira (anglo-saxã)... Considerando tais fatores, procederemos ao nosso estudo através da análise de alguns poemas de Rui Knopfli aqui elencados, e à luz de características e de reflexões a nós lançadas pelo drama shakespeareano.
II. Biografia do Autor
Rui Manuel Correia Knopfli nasceu em Inhambane, ao sul de Moçambique, em 10 de agosto de 1932 e morreu em Lisboa, em dezembro de 1997. Fez os cursos primário e secundário em Lourenço Marques (Maputo), e os preparatórios para ingressar em Arquitetura na Faculdade de Joanesburgo (que não chegou a freqüentar), na África do Sul. Foi delegado de propaganda médica, teve atividade assídua no jornalismo moçambicano, além de ter sido crítico literário e de cinema. Deixou Moçambique em 1975, tendo ocupado o cargo de Chefe de Serviços de Imprensa do Embaixador de Portugal em Londres. Colaboração dispersa por vários jornais e revistas, dentre os quais A Tribuna, Paralelo 20, Notícias, A Voz de Moçambique, Itinerário, Objectiva 60, Colóquio-Letras, JL etc. Foi tradutor e divulgador, no suplemento “Letras e Artes” da revista Tempo, de autores como T.S. Eliot, René Char, Dylan Thomas, Yeats, Octavio Paz, Sylvia Plath, Ezra Pound, Seamus Heaney, Archibald Macleish e tantos outros. Co-fundador, juntamente com o poeta Grabato Dias, da revista Caliban. Além de fazer parte de várias antologias, teve as seguintes obras publicadas: O País dos outros (1959), Reino submarino (1962), Máquina de areia (1964), Mangas verdes com sal (1969), A Ilha de Próspero (1972), O Escriba acocorado (1978), Memória consentida (1982), O Corpo de Atena (1984) e O Monhé das cobras (1997).
III. Desenvolvimento
Escolhemos, conforme mencionado anteriormente, a comédia shakespeareana A Tempestade, por trazer à tona o embate colonizador/conquistador vs. colonizado/conquistado; pano de fundo indispensável à nossa análise. Para tanto, faz-se necessária uma breve contextualização da referida peça.
A Tempestade foi a última comédia escrita por William Shakespeare, em 1613. Como todo homem da Renascença, Shakespeare (1564-1616) interessava-se pelos novos fatos do mundo, não ficando circunscrito apenas à Inglaterra. Com base nisso, não podemos desprezar algumas idéias que o influenciaram ao escrever A Tempestade. A do Novo Mundo (América) é uma delas. As Índias já tinham sido descobertas em 1492 e as Bermudas em 1503, tendo sido colonizadas pelos ingleses somente em 1609. Os relatos dos viajantes desta época retratavam os nativos como sendo um tanto quanto exóticos, inteiramente bons ou maus, e como seres amáveis e gentis em um primeiro contato, logo tornando-se arredios.
Outra idéia veiculada na peça advém do ensaio des Cannibales, de Montaigne (1533-1592) certamente lido por Shakespeare. Montaigne pregava a existência do “Noble Sauvage” (o selvagem nobre), que sem a interferência da civilização sob forma de leis, costumes/hábitos, formas de controle, viveria em permanente felicidade.
Assim sendo, Shakespeare encontrou subsídios que lhe permitissem ambientar sua peça. Próspero é o duque de Milão destronado pelo irmão (Antonio), abandonado, junto com sua filha Miranda, à própria sorte em um barco, o qual os conduz a uma ilha. Caliban (descrito como um escravo selvagem e deformado, um monstro) e Ariel (um “espírito etéreo”) são os elementos autóctones dessa ilha. Ambos, porém, assumirão posturas distintas: Ariel será subserviente e o servo fiel de Próspero, já Caliban será o escravo rebelde e inconformado, que reivindicará sua ilha, conforme podemos constatar no Ato I Cena II de A Tempestade.
E tu roubaste-ma. No início, quando cá chegaste,
E quiseste dar-me
Água com ginjas, e ensinaste-me como
Nomear a pequena e a grande luz
Que brilham de dia e de noite. E então passei a estimar-te,
E mostrei-te todas as riquezas desta ilha:
As fontes frescas, as salinas, as terras áridas e as férteis.
Amaldiçoado seja eu por ter feito isso!
É importante ressaltar que a personagem Caliban faz uso da língua do colonizador (por ele aprendida) tanto para amaldiçoar quanto para expressar sentimentos poéticos (uso poético da língua)
destrua você por ter me ensinado sua língua!
(Ato I cena II)
(...) esta ilha está cheia de barulhos,
sons e ares doces que deleitam e não agridem.
Às vezes mil instrumentos
Soam em meus ouvidos; e às vezes há vozes
Que, mesmo que eu tivesse acordado de um longo sono,
Fariam-me adormecer novamente. E então, ao sonhar,
As nuvens se abririam, e se mostrariam ricas
Prontas a caírem sobre mim, e quando eu acordasse,
Choraria por querer ter o mesmo sonho.
(Ato III cena II)
Como podemos observar, Shakespeare tratou, em sua peça, de um tema universal, a colonização. Daí A Tempestade ter sobrevivido tão atual durante quatro séculos e Próspero ter ingressado para a História como a encarnação do conquistador, e Caliban como o bastião da resistência.
Pelo próprio fato de possuir ascendência anglo-saxã e ter sido um homem cosmopolita (tradutor de vários autores estrangeiros, saiu de Moçambique e auto-exilou-se na Europa), Rui Manuel Correia Knopfli apresenta uma lírica também universalizante.
O poeta em questão demonstra a “agonia de um desterritorializado” em sua obra e faz da memória o espaço de uma existência dividida. De acordo com as palavras do próprio, que se auto-definia um “bipátrida e duplamente exilado” (JL, 21/3/89), percebe-se uma forte crise de identidade e conflitualidade: por vezes Knopfli oscilará entre a afirmação de certos valores culturais e estéticos que ora o inserem em Moçambique, a Tellus Mater, a Utopia, ora o filiam no ideário da cultura ocidental. A edição de sua poesia pela editora estatal portuguesa (Knopfli não pertencia à Associação dos Escritores Moçambicanos – AEMO) e a representação diplomática lusa o afastavam ainda mais da instituição literária moçambicana.
Mas “apesar de sua manifesta dualidade cultural”, o poeta assumirá “de forma ostensiva e militante a sua identificação com Caliban”, e toda a carga simbólica que a personagem shakespeareana acarreta (cf. Francisco Noa, p.55). Provas disso são a fundação, com o poeta Grabato Dias, da revista significativamente intitulada Caliban, e da coletânea que reúne poesias e fotografias da Ilha de Moçambique denominada A Ilha de Próspero (1972). Evidencia-se aí, a certeza de que Rui Knopfli leu A Tempestade e identificou-se com Caliban.
A fim de se estabelecerem maiores paralelos entre a obra do poeta e a peça de William Shakespeare, ou seja, de se destacar uma perspectiva calibanesca na poesia de Knopfli, analisemos os poemas “Naturalidade”, “Muipíti”, e “Vento da tarde”.
Europeu, me dizem.
Eivam-me de literatura e doutrina
européias
e europeu me chamam.
Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum
pensamento europeu.
É provável... Não. É certo,
mas africano sou.
Pulsa-me o coração ao ritmo dolente
desta luz e deste quebranto.
Trago no sangue uma amplidão
de coordenadas geográficas e mar Índico.
Rosas não me dizem nada,
caso-me mais à agrura das micaias
e ao silêncio longo e roxo das tardes
com gritos de aves estranhas.
Chamais-me europeu? Pronto, calo-me.
Mas dentro de mim há savanas de aridez
e planuras sem fim
com longos rios langues e sinuosos,
uma fita de fumo vertical,
um negro e uma viola estalando.
Também na voz do vento.
Também nela,
com sabor a sal
doutros mares,
e a sol
doutros continentes.
Também nela,
ao fim da tarde risonha,
ao cair do dia inútil.
Os dois,
eu e tu,
nós aqui mergulhados,
endurecidos de monotonia
e a voz do vento,
e até a voz do vento
traz o rumor subtil
de uma indisfarçada rebeldia.
Ilha, velha ilha, metal remanchado,
minha paixão adolescente,
que doloridas lembranças do tempo
em que, do alto do minarete,
Alah - o grande sacana! – sorria
aos tímidos versos bem comportados
que eu te fazia.
Eis-te, cartaz, convertida em puta histórica,
minha pachacha pseudo-oriental
a rescender a canela e açafrão,
maquilhada de espesso m’siro
e a mimar, pró turismo labrego,
trejeitos torpes de cortesã decrépita.
Meu Sitting Bull de carapinha e cofió,
têm-te de cócoras na sopa melancólica
de uma arena limosa e marinha,
gaivota tonta a adejar inutilmente
ao lume de água contra a amarra
que te cinge para sempre
ao bojo ventrudo do continente.
De teu, cultivam-te a vénia e a submissão
solícitas, trazidas nos pangaios
lá no distante Katiavar,
expondo-te apenas no que tens de vil,
razão talvez para que ao longe, de troça,
pisquem mortiças as luzes do Mossuril
ou sangre no meu peito esta mágoa incurável.
Mas retomo devagarinho as tuas ruas vagarosas,
caminhos sempre abertos para o mar,
brancos e amarelos filigranados
de tempo e sal, uma lentura
brâmane (ou muçulmana?) durando no ar,
no sangue, ou no modo oblíquo como o sol
tomba sobre as coisas ferindo-as de mansinho
com a luz da eternidade.
Primeiro a ternura da mão que modulou
esta parede emprestando-lhe a curva hesitante
de uma carícia tosca mas porfiada,
logo o cheiro a sândalo, o madeiramento
corroído da porta súbito entreaberta,
o refulgir da prata na sombra mais densa:
assim descubro subtil e cúmplice,
que a dura linha do teu perfil autêntico
te vai, aos poucos, fissurando a máscara.
Em Naturalidade, Rui Knopfli manifesta sua crise de identidade (confronte toda a primeira estrofe do poema), chegando a admitir a dualidade africano vs. europeu (“Não sei se o que escrevo tem a raiz de algum/ pensamento europeu./ É provável... Não. É certo,/ mas africano sou.”), estabelecendo, no entanto, uma escala de valoração e identificação com as raízes africanas (confronte o restante de toda a segunda estrofe e observar o par de oposições rosas – elemento europeu – e micaias – elemento tipicamente moçambicano, e as avesestranhas, segundo o olhar de um europeu, alóctone). Ao término da leitura de Naturalidade, em toda a última estrofe, o poeta assume sua africanidade em plenitude, deixando entrever que a “acusação” que sobre ele pairava (ser um europeu), já não mais o incomoda, sua crise identitária mostra sinais de resolução (“Chamais-me europeu? Pronto, calo-me”.)
Em Muipíti, nome de uma das ilhas na costa de Moçambique, Rui Knopfli, a exemplo de Caliban, reivindica a sua ilha. Ao longo de todo o poema pode-se perceber um tom de denúncia. De Tellus Mater, local de refúgio e das raízes, Muipíti apresenta-se decadente, submissa.
Primeiramente, o poeta introduz sua ilha aos leitores como o local da memória, o espaço utópico (confronte toda a primeira estrofe), para logo após assumir o tom denunciatório, fruto dos efeitos da colonização (observar toda a segunda estrofe e atentar para pró-turismo labrego que, neste caso, pode tanto referir-se ao turismo predatório, para explorar o exótico, como também à perda das raízes, uma vez que labrego é uma espécie de arado com varredouro que, ao sulcar a terra, arrasta consigo as raízes da mesma). Continuando na descrição do panorama de Muipíti, Knopfli apresenta os elementos étnicos e culturais historicamente subjugados pelo colonizador, mas profundamente enraizados, arraigados (confronte toda a terceira estrofe), além de manifestar revolta e mágoa pela situação de sujeição e aviltamento da ilha (toda a quarta estrofe).
Apesar do quadro desolador desenhado pelo poeta, ele revisita Muipíti com seus “caminhos sempre abertos para o mar”, que tanto podem remeter à disposição geográfica das ruas na ilha, como ao mar-veículo que traz o colonizador (e com ele a agressão cultural, histórica, a exploração do homem e dos recursos naturais do lugar).
Por fim, na última estrofe, pode-se vislumbrar um espírito combativo e de resistência: o poeta descobre “subtil e cúmplice,/ que a dura linha do teu perfil autêntico (Muipíti)/ te vai, aos poucos, fissurando a máscara”. Ou seja, apesar de “pachacha pseudo-oriental maquilhada de espesso m’siro exibindo trejeitos de cortesã decrépita”, Muipíti resiste e rompe com a “máscara” a ela imposta.
Finalmente, concluímos nossa análise com Vento da tarde, que prossegue na linha do estranhamento do outro, apontando, porém, para um posterior “reconhecimento”. Neste poema, o vento funcionará como o veículo de comunicação entre o eu e o tu (há dois interlocutores, o eu-autóctone e o tu-o outro). A voz do vento “com sabor a sal/ doutros mares,/ e a sol/ doutros continentes”, ou seja, a que congrega colonizado e conquistador, apesar da aparente unificação, “traz o rumor subtil/ de uma indisfarçada rebeldia”, evidenciando-se aí que é possível a “convivência” entre subjugado e colonizador (o “reconhecimento”) estabelecendo, no entanto, uma diferenciação entre esses dois elementos antitéticos e incompatíveis entre si. Ressaltam-se o “aspecto calibanesco” de “indisfarçada rebeldia” ao final de o Vento da tarde (uma vez mais trazendo à tona a resistência, o espírito de luta encarnado pela personagem shakespeareana) e a mesma “subtileza” aqui retomada pelo poeta como em Muipíti; sutileza esta que o permite perceber, depreender e contestar sua realidade de colonizado.
Após a análise dos poemas de Rui Knopfli, podemos perceber o caráter universalizante presente em sua produção lírica; como também universal é a peça shakespeareana A Tempestade.
Faz-se relevante a reflexão de que se, por um lado, todo processo de colonização deixa marcas indeléveis (fragmentação identitária, étnica e ideológica, por exemplo) nas novas terras em que é implementado, por outro, ao impor a língua do conquistador, concede uma arma poderosa: a mesma língua que pode amaldiçoar e nos colocar em patamares de igualdade com nossos colonizadores, permite que nos expressemos; produzamos literatura, possamos delimitar nosso espaço, e, a partir daí, construir uma nova identidade...
Referências Bibliográficas:
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SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro. Antologia do mar na poesia africana de língua
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